quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Tão quente que apaguei todas as luzes da casa e me deixei no breu. Eu me arrastava pela cama num ato lascivo de sentir o atrito da pele, o vai e vem. Prometi às promessas que não iria cumpri-las porque até elas ficam gastas com o tempo. Fiz planos absurdos como o de achar um homem no mapa e me apaixonar por ele. As sílabas do nome dele roçam nos meus dentes e língua. Eu queria soletrar esse homem, dar as cartas. Ele me confronta, me persegue. Mas meu sangue não suporta, quer ver o oco, quer dizer aos gritos, quer ter coragem. Se ele quer, eu nego. Se ele nega, eu quero. Insisto nas teimas por mera covardia de menina. Meu plano é ter respostas. Abro a janela. O rosto dele na minha nuca, lembrança disfarçada. Não perco o hábito. Eu quero sempre amar onde não há amor.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O amor me deixou muito dura, descrente. O amor pisou em mim como passam pneus sobre poças d’água. Me revirou todinha, me questionou, me torturou como se fazem com prisioneiros. E eu pedi que o amor me levasse. Me botasse solta numa sala escura e me interrogasse todas as questões ainda sem resposta. Pro amor sou menina, falho muito. Deixei ele me castigar por minha má educação. O amor me freou as entregas e as súplicas. Só me entrego aos bichos, só me dou pro mar. A água fria entrando em mim, lavando meus poros, levando minhas dores, afrontando meus medos, afoitando minhas coragens. O amor é meu céu e meu inferno. O mar é meu subterfúgio. Sou mulher de ondas largas que batem forte e levam tudo. Sou mulher de grandes naufrágios e emersões maiores ainda. É só de amor que vivo e é só de amor que morro. Felizes os que me leem, arriscados os que me amam, tolos os que se metem comigo. Eu quero uma força bruta. Eu quero que ele me confunda com o mar: chamativa, de mistérios. Absurda e apaixonante.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Autoritarismo

Chico me puxou pelo braço. Me disse pra ficar atenta com o amor que assopra sem morder. Chico sabe de mim numa força de alma extraordinária, algo como conjunções de desejos e fraquezas, carinhos, tédios e etcéteras. Ele disse saber de cor meus medos e minhas doçuras. Mas a ideia de ser amada me perturba. Eu sempre quis ser a mulher proibida, a que veste de dia e despe à noite. E sou. Não há conformismo: luto contra nós. E tudo o que quero somos nós. Chamo a gente de amor crônico. Não entendo. Viro a página mas não mudo de história. “Jesus não castiga o filho que está inocente”, canta Ney Matogrosso no radinho de pilhas. Mas teu amor parece injúria. E você me diz pra dar tempo ao tempo.  Mas homem... é o tempo da tua falta o que me culmina. Se me conhece sabe que sofro de amar demais. E de querer demais. E de ser demais. Gritante. Numa boca que se presa mas num corpo que não se cala.
Eu te chamo e você rejeita. Eu te escrevo e você não lê. Peço: me alisa que sou mansa. Mas não deslize – arrisque.
E você vai sempre com a certeza de que na volta estarei aqui, tua.
E você sabe que sim. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Outdoor

Com amor, para Luc Ferry.

eu me lembro bem de não ter nada naquela vida
além de sentimentos revolucionários
meu meu corpo para a pátria cuspir em cima
meu sangue para jorrar nos ociosos

eu quis ser grande e fui
morri tantas vezes não por mim
mas por todos
minha língua afiava politicagens ao pé do ouvido
queria ser Joana e Canô
ir pras ruas fazer justiça
meu grito saía do peito ardendo em chamas
meus ideais eram mais felizes
agora contam overdoses jogados no piso frio de um banheiro de bar vagabundo

hoje nessa vida me acho tão miúda a remoer amores mal amados
gastos, inaproveitáveis
sou mulher da casa
prepotente a somar dores
como se me vingasse dele
destruo a mim
sou amativa
sou cretina por amar, sei
antes tanta luta 
hoje tanta perda de sofrer
por minhas provocações vulgares
por ele que me enlaçou as pernas
hoje sou presa em mim
tanto mundo pedindo
e eu não me dou, puxo pro fundo

sou uma mulher moderna
como todas as outras
presa nas compras do mês
e nas dívidas que ficaram por vir
divorciada, urbana, refém
e isso me aterroriza



domingo, 26 de maio de 2013

"Comporta-te como a que cala e supostamente aceita
A condição daquele homem."
Retruco que não entendo minhas submissões.
Já não sei se meu amor é submisso ou transgressor e sem vaidades.
Se sou sozinha ou sou livre
se devo admitir desejos ou fazer deles silencio.
Virar do avesso e fingir de santa
escolher por absolutismos e devoções 
ainda que eu não seja devota 
de nada além do proibido.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sou aberta ao amor
suas consequências 
seus sofrimentos 
seus ensinamentos
que nunca aprendo.
Sou vulnerável às paixões 
e todas as formas de linguagem. 
Meu corpo é livro aberto que ninguém sabe interpretar. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Vera-neios


Eis que esse homem materializou meu desejo
e agora meu corpo pede bis
não tem costumes nem rituais;
é cru, suplica, fala, sente excessos.
Explico como quem nada quer
que não acredito na ressurreição das paixões perdidas
sou filha do oceano,
pacto qualquer com a sede pelo infinito
mistério que afoga e puxa pro fundo
seduz.
Que sou gata no cio
urgindo por vida
e em mim ninguém manda.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Não se iluda não
que eu te fascino
pra te ter
depois te engulo
e te cuspo
porque não quero mal
pro meu corpo
viro bicho
boca vermelha
olhos negros
eu quero tudo
que me faça mais forte
felina
ferina
fera
se digo que sou tua
é pra fazer pose
não sou moça
não tenho postura
sou vaidosa
eu não sumo
eu somo
me lanço
avanço
em ti
provoco
em mim
uma revolução
pra depois contar história
ter as marcas e os gostos
os sotaques e os trijeitos
pra ser várias
até achar uma
que me convença

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