quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pra não dizer que eu não disse.

Eu nunca chorei por você. Eu chorei pelas noites em branco que eu passei,
pelo estômago que não queria nada, pelas insaciáveis vontades de suprir o vão, por me precipitar ao te deixar entrar. De nada adiantaria tentar te explicar porque você jamais entenderia. Gente como você se desvia da realidade, se ilude nas noites com uma bebida cara, beija os lábios de uma desconhecida e acha que é feliz.
Gente como você não se estabiliza, trabalha e sente sempre uma ausência que não sabe explicar, pois nunca se quer parou para tentar entender. Vai levando a vida como se fosse um jogo, vai engolindo o choro pra não mostrar fraqueza, vai perdendo a hora, vai perdendo o sentido.
Gente como eu não se basta em existir, une a vida com o verbo e suporta a estrondosa morte diária, embarca
na dificuldade de tentar compreender, mesmo que tudo pareça errôneo, mesmo que não hajam seres suficientemente
pensantes que sentem ao teu lado e te dêem ouvidos, ou melhor, o coração.
Assim, tão cansada de não achar sentido pra nada, de perder mais do que ganhar, de buscar
um equilíbrio que me permita ainda sim sentir e jamais deslocar.
Continuo acordando no meio da noite, ainda ligo o rádio e abro a janela, ainda sou insone pelas manhãs, ainda troco de canal a cada dez minutos, ainda tomo café o dia todo e ainda reviro na cama sem parar.
Ando ignorando as aproximações e amando pouco. Adoro sorrir para estranhos e desligar os telefones, tentar parar de querer entender e deixar rolar, mas não consigo encontrar nada que seja suficiente para me calar, e
nem quero. Obviedade me dá rugas.
Naquela noite você foi e acabou pra nós, acabou até algum dia, até nunca 
mais. Logo, começou. Está sendo lindo cada tropeço, cada erguida.
Você sabe, estou sempre esperando algo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Em branco.


Pensar no nada absoluto me deixou extramente constrangida. 
Quando não me preocupo em admirar ou destrair, quando qualquer enfeite é mero detalhe aos olhos já distantes.
Como se eu não me perdoasse por sossegar os pavores insanos e aquietar os berros.
Nada acontecer é como um coma, e eu não me permitiria viver como vivem.
Tinha sim meu tempo para as dúvidas, para sentar-me de frente para a parede branca e chorar com profundo desespero, e não ser a parede branca como tenho sido.
Vinham as frases de impacto que em mim nada impactavam, vinham as pessoas interessantes que me desinteressavam, vinha o alto valor do reluzente que reluzia somente meu desprezo. 
Estava como uma ausente de emoções congeladas.
Talvez fosse um alívio deslocar a dor, mas também imperdoável não ser consciente.
Assusta a velocidade com que tardam e passam as coisas. E eu não poderia me deixar passar, jamais admitiria ser feliz e me deixar de lado. 
Como vãos na multidão, como um contínuo desafino no ritmo híbrido de sentir.
Como atravessar a avenida na faixa com o farol fechado, como manter-se virgem até o casamento. Perde a graça.


segunda-feira, 18 de maio de 2009

Lucidez custa sim os olhos da cara.

Sentou-se semi desnuda em frente ao espelho e chorou como um recém-nascido.
E de fato nascia a cada instante, assim como morria também.
Era como um espirro: desconfortante antes e depois.

Pensara que ainda no mesmo dia pela manhã, um senhor de olhos profundamente verdes a olhara
com espanto, como se houvesse adentrado em suas veias, e palpitado junto com suas dores, como se houvesse
descoberto a calamidade que em sua alma pairava.
Mas não, apenas estranhou tamanha desordem num ser recém-nascido. Tamanha tristeza refletida no olhar,
logo tão cedo no dia, logo tão cedo no tempo de vida.

Então, horas a fio sentada alí, lamentando-se aos gritos não contidos em frente ao espelho, inconformada com tamanha irracionalidade própria.
Como poderia deixar-se protrificar tanto? Não imaginara tanto eco em si mesma.
Projetara num ser distinto seu pior lado: o banal. E gostava de sentir banalidade naqueles braços frios, pois de certo modo confortava não ser somente uma presença, já que era agora uma lembrança.
Em meio há tanta fossa, não permitira matar-se por outro, e sim por si só. 
Mas não podia, pois restava no fundo de alguma veia latejante de seu coração uma minúscula vontade.
Admitira em silêncio à si mesma que vontade se tratava de vida.
Não é vergonhoso querer viver. Vergonhoso é não poder. É se entrevar como lá estava, sempre presa à algo, sempre algemada à álguém.
Trata-se de demência existencial, deficiência afetiva do passado, do presente: de si mesma.

O que mais impressionava era toda essa complicação.
Se a face tinha olheiras, se os lábios não eram fartos, se o cabelo não era domado, já não importava.
Importava o grande trânsito emocional que derrubava cada sentido lúcido de si mesma.
Liberdade era livrar-se dos próprios monstros, era deixar ir e vir, era amar sem engano, era parar de ser sempre aquela recém-nascida que de tanto sabia, mas de nada conhecia.

Chorou de perder o ar e já não podia mais ofegar.
Caminhou lento ao chuveiro e estatelou-se contra o chão.
Gastara as águas do mundo para sentir alívio, um grave sinal de egocentrismo.
Quisera dar-se ao luxo de nascer de novo. Dessa vez não de alma, mas sim de corpo, mas talvez jamais fosse suficiente.
Talvez a vida seja um carma que pese imensurávelmente sobre seus ombros.
Talvez a vida seja uma folha que voa com altos e baixos pelo ar.
Talvez ela fosse um descartável ser insone que perambulava pelas avenidas de si mesma.
Talvez fosse o caos, o belo, o pouco, o nada, o tudo.
E era.

quinta-feira, 14 de maio de 2009


Mede-se uma dor cautelosamente provocada pelos retalhos do pouco ocorrido.
Um momento de ferida exposta, uma eterna cicatriz.
De conturbada, basto eu.
Na mesma margem estivemos, mas jamais na mesma dimensão.
A sintonia do corpo meu não se explica, não se encontra, não com a tua.
Todas essas tardes cinzentas de inverno, todas essas noites de êxtase solitário, todas aquelas análises, todos aqueles calmantes, todo aquele sabor de tabaco colado na minha língua, todo aquele amor inacabado latejando lá dentro, aquelas madrugadas de olhos arregalados, aquelas manhãs sonolentas, aqueles dias gastos em vão, toda essa grandeza que em mim habita, todo esse vazio que em mim abriga, me fez mais humana, me fez mais vivida.
Sentir é perigoso, mas eu gosto assim.

domingo, 10 de maio de 2009

Flogose Reflexiva

Entrevada numa constante intranquilidade,
solidificada em meio aos outros.
Estes olhos meus, agora e sempre enxarcados, distantes.
Consciente de ti e de mim, me congelo.
Descrente de tudo e de todos, me ausento.
Não sou grande realista, tampouco grande existencialista.
Sou este rosto pálido, este resultado vago de um desprezo teu, 
esta extensa contradição, estas estúpidas vontades de.
Minha intensidade está no que desejo, no que oculto, no que mostro.
Mas não faz sentido e nunca fará. Não entendo e nunca entenderei.
Nunca pensei cair no cansaço de me ser.
Sempre tive tanta sede, e hoje tenho fome, tenho buracos na alma e no estômago.
Escrevo para tentar explicar a mim mesma que não tenho remédio, e ponto.

sexta-feira, 8 de maio de 2009



Não entendes meu desnorteio, não imaginas o inferno em que resido.
Me sinto debilitada diante desta antítese emocional que nos separa.
Por tanto que atravessamos, e por tanto que dividimos, não sei desligar-te de minhas rotinas, já que asfixio sem tua presença.
Te amo como passado, como presente, e sem ti, meu futuro seria incerto.
Perdoa-me pelo que sou.
Aceita-me que te aceito também.
Não condene meu desarranjo de ser, não julgue minhas infelicidades.
De modo que não mudaria, também não viveria sem ti.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Un trocito de cada uno.

Tenho meu universo particular, tenho minha bagunça meticulosamente desorganizada,
tenho imprecisão nos meus horários, tenho os músculos mastigados,
tenho uma extensa necessidade de sumir, de encontrar, de dizer, de calar, de amar e ser amada,  de entender.
Diante dessas horas gastas que te envelhecem a pele, desses dias pra viver e não ser,
eu corro, eu me abasteço de um pouco de sonho.
Sonho pra ter o que viver, para almejar.
Nem tudo é poesia, nem tudo é tristeza, nem tudo é alegria.
Um pouco de cada, um pouco do mundo.
Prefiro assim.

sexta-feira, 1 de maio de 2009


Uns demoram a vida toda pra descobrir, outros jamais descobrem.
Descobri à mim mesma, colidi com meu eu.
Fiz-me incompreensível aos outros, isolei-me de própria vontade.
Só não quero deixar me amargar, fazer da consciência um eterno desconforto.
Basta me encontrar para me perder, basta pensar para sofrer.
Só então entendo os felizes: não pensam.
Minha vida é pensada, e tenho tanto, 
que jamais abandonaria meu pensamento.
De tanto, me tornei pouco: pouco feliz, pouco apaixonada, pouco alienada.
Tão raros são aqueles que me persuadem, tão breves, tão escassos.
Não preciso de muito. 
Preciso de um único, um inteiro.
Preciso de certa absolutez para que de algo possa me sentir completa.
Mas o que de fato no presente momento mais necessito é de mim mesma.
Para que haja possibilidade de próprio querer, de próprio fazer.
Há vida, há medo, há ânsia.
Não nego, jamais.

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