terça-feira, 18 de agosto de 2009

"...acorda, escuta."

Depois de dois quilos, sete meses e algumas gramas, voltei a ver-te.
Sentado distante com os olhar de éter e os lábios desgrudados, me tomou a mão quando passei como se não o houvesse visto.
Pressionou-me contra o seu peito e desviou os olhos dos meus. Nunca teve força para me olhar no fundo. Acho que te cegaria ver tanto.
Rezei, escrevi, viajei, conheci gente nova, bebi, tive crises alérgicas, mudei meu cabelo, me afundei em filmes, músicas, literatura, e nada, absolutamente nada te tirou de mim.
Depois dessas noites sem sono e desses dias mal vividos, você continua supondo que sou o que supostamente não sou, e desejando violar meu corpo.
Lembro que, teu cheiro ficava por dias na minha roupa, e não havia coragem suficiente para apagar teu último vestígio em mim.
O tempo correu lento, meus esforços se fizeram insuficientes, meu peito pulsava de dor e a necessidade de coisas surpreendentes aumentava a cada dia. A vida me cansava por nada acontecer, por estar sempre no mesmo eixo tedioso de ser.
Penso agora que te quis como distração para as minhas dores e para as minhas alegrias.
Ainda não tem fim, tem o repouso daquela voz drástica que me fazia insistir em você, que nunca vai ser o bastante para mim, vai sempre me deixar, e então se eu te tivesse em mãos me cansaria da tua falta de êxtase, já que amo demais, quero demais, sofro demais, bebo demais, me descontrolo demais, te quero demais. É tudo um transbordamento.
Eu olho para os outros tentando me achar, tentando querer sem me entregar ou me ausentar, já que ando tão extrema.
Com o tempo tudo vai diminuir, aumentar e se transformar. Só não acredito que algo que tenha vivido aqui vá um dia morrer em mim.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Queria te abraçar agora e despejar minhas dores convertidas em lágrimas e murmúrios não contidos.
Acho sempre que um dia ainda vou encontrar abrigo em alguém. Nada parcial, nada temporário.
Sei que minhas frases impulsivas te assustam, e que meus modos inconstantes te afastam. Não consigo me regrar, me moldar para servir em algo ou alguém.
E não, eu não quero morrer. Tenho muita vontade de vivenciar essas distrações que inventaram pra ocuparem a gente enquanto vivemos. As drogas, os exercícios
físicos, as músicas, os livros, a televisão, os sapatos, os perfumes, a dança, os sabores e tudo aquilo que a gente nunca vai descobrir por completo.
Mas eu tenho pressa, tenho ânsia de pisar no chão e me jogar na vida. Que meu tempo seja curto, mas que seja suficiente e tão intenso quanto o que queima dentro de mim.
Eu esperava que as coisas que eu conhecesse fossem preenchendo as lacunas que haviam em mim, mas quanto mais eu conheço, mais lacunas se abrem.
E então as coisas não são mais bonitas ou confortáveis. Tudo passa a ser mais detalhado, mais visto de perto. Me vejo tão de perto que me assusto.
Quando alguém conhece sua dimensão é sempre assustador, e sei que ainda tenho muito mais pra ser.
Não tenho paciência de esperar que amanhã melhore. Se hoje não está bom, então amanhã não vai estar, e eu quero que esteja logo.
Todas essas indas e vindas, estas guerras e mortes, estes nascimentos, as overdoses e a fome, e eu aqui, me martirizando com a minha dor que é pequena
quando posta ao lado das dores do mundo. É que tenho necessidade de me pensar, de ser singular pelo menos aqui dentro de mim, já que lá
fora sou só mais uma.
Que facada no peito é essa vida, não?! Eu aqui te escrevendo tudo o que eu não saberia dizer por voz, e tentando imaginar a tua cara. Imagino que você
pense que eu deva crescer, e que a minha própria dimensão não chegou nem a metade. Pode imaginar, não estou tentando me explicar. Estou tentando
desabafar com as palavras pra poder acordar mais leve amanhã.
Não existe nada exato pra te dizer. Tenho asas, pés que se dividem entre o pisar e o voar.
Vai sempre faltar alguma coisa, nunca estarei concluída. Eu espero, as coisas brecam, o tempo corre, a minha ordem é uma desordem.
É este meu hábito de contradizer que me faz propositalmente avessa.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Você vem, me segura pelas mãos dizendo pra eu não ir. Você sabe, não adianta.
Minhas vontades falam mais alto que meus limites. Tem tanto mundo lá fora e eu não vou me prender.
Meu maior medo é me entrevar. É não conseguir sair do que eu sou ou de quem eu amo. Tudo o que me faz bem vira excesso, e me protrifica mais tarde.
É por isso que eu mudo, que eu nunca me basto.
Tarde demais pra tentar voltar atrás. Queria te dizer um amontoado de coisas, e vou. Queria acordar num sábado e ir para Buenos Aires. Queria te ligar
ainda sóbria e dizer que meu maior erro não foi você, e sim meu orgulho. Que eu te quero porque minha vaidade te deseja, e que eu não tenho sido tão doce,
tão compreensiva.
As coisas são complicadas demais pra entender, mas eu gosto de tentar. Me perdoa se eu quero viver. Tenho meu ritmo de querer morrer, sair andando sem olhar pra trás. Tenho necessidade de sofrer porque sei que sou capaz de transformar minha dor em conforto, e nada é tão delicioso quanto se levantar do seu próprio fracasso.
Minha vida foi vivida pelos olhos, pelas milhas, pelas horas. Tudo nasceu comigo e eu fui levando, fui aprimorando, piorando.
Essas fugas são pra tentar me fazer feliz, ou afastar a tristeza.
Não tenho medo de ir. Se você não se joga você não cai, mas também não voa.

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