sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Divisão

Às vezes paro
absurda, inconsolada,
abrindo com urgência o peito,
revirando pra ver se acho conserto,
paradeiro, síntese, maneira.
Às vezes paro
perplexa, revolta.
Se eu fosse, quem me sentiria ausente?
Eu neste mundo, o que faço?
Quem teceu essas linhas tortas,
vidas confusas, cantos, versos,
acidentes, noites de chuva,
horas extras, fome e dor?
O que de tão grave me acontece
que nada se resolve em mim e nem
se encaixa aos outros?
Por que é que amo torto, tombando
à demasia ou ao nada?
A solidão me calça como sapatos
e os desejos me vestem nas pernas.
Sou oca de entendimento.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Raspas

Me falta força de soletrar
meus pecados, deletrear meus acasos,
sobressair meus impulsos.
Me sobra tempo de me carregar
espessa, irredutível, avessa.
Meu coração não sabe e tenta saber,
curioso, atrevido.
Não sei o que insiste na teimosia
de querer sentir o desabrochar
até entornar no fim,
querendo sentido pra tudo.
Querendo sentir e me falta fundo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Âmago

Ele não tinha mais a mesma forma
descompassado, abusivo.

Ele nem tinha mais tanto lirismo
noites, nudez e liberdade.

Ele não tinha mais espaço
pro meu embaraço.

Ele andava cauteloso e plácido.
Me media e me solucionava toda.

Eu o esperei movendo-me.
Eu abocanhei todos os pecados.
Eu desentortei o impossível.
Eu senti amargo e o fiz doce.

Sou volúvel.

Eu não tenho encaixe.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Gula

Não presto
pra nada que dure
nada que prometa
nada que pressione
nada que não impressione
nenhum pra sempre
nenhum talvez
nenhuma dor sem razão
nenhuma razão sem loucura
nenhum amor por razão
nada que me rume
nada que me arrume
nada que me corte
nada que me detenha.
Não presto
pra homens censurados
homens calados
homens ocos
gentes retas
gentes certas
gentes quietas
e nenhum gênero de covardia.
Tenho coragem e dou as caras ao tapa.
Hão de me amar pelas beiradas,
comendo o meio,
olhando a cara e lambendo os beiços.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Precário

Meu amor
está pendurado de cabeça para baixo
está guardado numa gaveta trancada
está com o rabo nos meios das pernas
está com os dentes se debatendo de frio
está tateando paredes no escuro
está sentado no meio fio
está gaguejando ao falar
está tropeçando no andar
está secando a garganta de sede
está deitado no calçamento
está pedindo esmola em qualquer avenida
está rodando a bolsa em qualquer esquina.
Meu amor pede tudo e não tem nada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Zona

Tenho descompassos e desequilíbrios
pontuais e imprecisos.
Tenho curvas na cintura e
mãos atrevidas.
Eles me dizem pra me pintar,
me circular de paixão, me doar por prazer.
Meu prazer tá na gastura.
Tem de me vir sofrido, arrastado, apertado.
Tem de me acontecer sem previsão e nem destino,
tem de me dizer que sim e depois me tapear a cara.
Gosto do arrepio.
Tenho tudo que uma mulher pode ter.
Um dom de quem vai oca e volta inteira.
Um dom de quem ama tímido e aos baldes.
Tenho tudo e nem me cabe tanto.
Sou maiúscula.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Coragem

pra amanhecer, encarar, esquentar,

esfriar, amar, desamar, iludir,começar,

terminar, atravessar, acender,

apagar, ir, chegar.

Coragem

pra me olhar no espelho,

dizer que me amo,

sentir que me amo,

sem outro homem, sem tostão no bolso,

sem roupa no corpo, perfume nem nada.

Coragem

pra abraçar e dizer pr'aqueles olhos
"saudade".

Coragem

pra não viver o que for sendo,

a tentar aos bons modos e fazer meus próprios.

Coragem

para os 365 dias e algumas noites em branco,

porres e choros amargos,

gozos agudos e farras vazias.

Coragem

pra casa e pro fogão,

horas a fio tecendo minha estória,

gentes débias e paixões inacabadas.

Coragem

de viver pensando

como quem descobre

que viver é sempre

insuficiente.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Invasão

Ele me puxou pra dentro daquele apartamento.
Abriu meu zíper, me rabiscou com a língua,
me apertou os seios, pausou os olhos nos meus,
flertou com a minha alma, distraiu minha ira,
atiçou meu pulso, me tirou a fala, me tirou a roupa.
Ele me largou na rua, fechou a porta, levou a outra,
mudou de casa, esqueceu meu nome.
Ele disse que queria, mas não sabia
que querer era também um jeito de acenar adeus.
Ele não sabe que não se invade domicílio se não for ficar.
Ele não sabe que não se bole com coração de mulher.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Desmonte

Penduro sorriso postiço no rosto,
bochechas vermelhas, dedos que se escondem entre as pernas.
Ainda ontem tentei me amar.
Tirei o rímel, o salto, a saia,
sentei no chão, me olhei de perto.
Não sou bonita, não sou mulher, não estou segura.
Pensei que tinha asas.
Não posso comigo.
Deito, me encerro nesse quarto,
nessa cama, nesses lençóis, nessa saudade.
Me socorre, moço,
que esse meu modo é perverso demais pra um só corpo.

sábado, 7 de agosto de 2010

Recado

Pulso e peço palmas,
tenho fome e quero ajuda.
Esse êxtase não é passageiro,
nem benigno.
Estou em trapos na contramão.
Inapropriada que sou,
melhor dosar minha companhia.
Vou-me nua como quem nasce.
Vou-me sozinha como quem morre.
Quero que me conheçam outra.
Seguirei na risca dos sobressaltos e impulsos.
Onde vou não há pecados.
Onde vou as gentes são soltas.
Onde vou os tempos são outros.

domingo, 1 de agosto de 2010

Dou-lhe as cartas

Por ele finjo de santa, dou-lhe as iras, faço-me tolerante,
desejo-o como amante.
Por ele cometo loucuras e sobrevivo de carnavais,
sigo os pressentimentos e tudo mais.
Dou-lhe as chaves, deixo de virar mesas, pondero e declino,
arrisco e desatino.
Por ele uso silêncios e gemidos, gritos e cantos.
Jogo pudores no lixo, queimo o explícito, venero o mistério.
Por ele me mostro em doses menores e aprendo a calma.
Ele que volte, contorça, me encare.
Não mudo por ele, e nem por ninguém.
Convenço, converto, carrego.
Não caibo nesses limites.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Fúria

Veja, como sou inconseqüente,
como gosto de tudo que excede, transcende, enlouquece.
Gosto dos riscos e as facas,
o toque e o choque,
o fino e o espesso.
Veja, como sou atrevida,
como gosto de tudo que atinge, suplica, desafia.
Amanheço uma, anoiteço várias.
Veja, como sou mulher e como sou livre.
Olha-me. Receba-me. Entrega-te.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eu e muitas.

Estou cansada de me sentir metade. Já me dividi, já recebi, já careci, já transbordei. Algo em mim tem presença por estar sempre ausente.
Já fui tantas, até tantos, até as tampas. Cansei das turbulências. Se pudesse, morreria todas as noites. Amanheceria outra, pra me livrar do erro, pra me livrar de mim.
Passa em mim, feito braços maternos, passa em mim, feito ternura de homem, fica em mim, como posse, como luxo, como esperança, como vida, como complemento, que cansei de ser eu, e muitas.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Marulhoso

Carrego excelências, de porte e de corpo.
Dos avessos me tomo, das exclamações me proclamo.
Uma só de mim são várias.
De solas coladas ao chão, parto ao pensar
e ponho-me sempre ao acaso.
Sou filha do descomunal.
De tremores a fala se discorre,
preciso do que me sustente num laço.
Bem sei: qualquer pedaço de carne faz-se mais clarividente que ti.
Aflitivamente, é da tua carne que insisto em querer,
e queres o nada envolto num corpo de aparências.
Teimo, se não te conheces,
dou-te a chance: conheço-te todo e apresento-te a ti mesmo.

sábado, 26 de junho de 2010

Recolhi-me por instinto, feito dedos que se esquivam do corpo gelado. Eu, que vivo de encontrar fascínios nas miudezas, não me admito morna. Quero tudo na efervescência.
Só o desprezo me coloca freios. É por isso que hoje posso esquecê-lo num passo lúcido e decidido. E até esqueço, mas volto a lembrar por capricho. Gosto dessa farpa me espetando os sentidos. Gosto de tentar o aparente inalcançável. Minhas overdoses são lícitas e incomuns: entupo-me de peripécias.
Não há mais um grama de sofreguidão em qualquer ausência que me ocorreu, mas vasculho o inerte até achar inquietude. Vivo porque escrevo, porque me tenho. Assumo: dependo de tudo que reluz o olhar.

sábado, 12 de junho de 2010

Do Pouco um Tudo

Quero qualquer tentação, uma nova saudade, alguma faísca.
Quem se atreva, me atice, me enxergue num close.
Veneno que sirva de antídoto, gosto que não se acabe em desgosto.
Que me absorva sem frouxidão e não saia na ponta dos pés.
Saiba, meu amor é tímido, metido, feito de revelias.
Sou inabitada de qualquer leviandade.
Não temo pecados, prefiro o fundo ao raso.
Que me tire o sono, me ponha a fome, me trema a voz.
Não me divido com ninguém.
Apenas recebo, concedo, apaixono.
Procuro de tudo um pouco, quero do pouco um tudo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Te demito das minhas idéias

você volta

se instala

me rouba

me carrega

não te vejo

só ouço teus passos

sinto

em forma pontiaguda

insistente

de saudade.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Lavo o rosto, turvo os olhos, borro os sentidos, viro a taça, percorro minha pele, desvio até ele, escrevo uns versos, teclo seus números, sussurro em francês, pauso o olhar, o corpo desmonta. Sou uma mulher indigesta. Tento, tento, mas não me livro de mim. Assisto aos rasos levando, mas não, me enveneno de tudo, quero o que me toque e me leve, e preciso desse estado, o estar só.
Tento despir-me dele, mas é inútil controlar o desejo, e que sejamos pra sempre emoção, jamais raciocínio. Vem, não sou mistério. Domo o falar, jamais o sentir. Sou violenta, casta e pacífica, entregue e recolhida. Acolha-me e tudo ficará mastigável.
Desequilibro ao anoitecer, distraio a saudade, rompo com o que me cabe e ouso também que algo mais me caiba, movo-me pelos sentidos. Sinto a memória feito lanças por dentro, e lanço-me toda no que acredito.
Fico aqui, te deixo à medida em que me esqueço. Preciso de uma abstinência de mim, de nós. Tenho me matado aos poucos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sofrimento me serve de equilíbrio. Emocionalizo o raciocínio, racionalizo a emoção. A escrita me escorre pelos dedos de acordo com minha necessidade de desassossego. Cavar-se fundo e provar de outros é como dependurar-se com meia dúzia de dedos num abismo com vista para o paraíso. Chacoalho o corpo como se a queda jamais fosse me acontecer. Vezes uns dedos me escapam, vezes me embriago com a beleza da vista.
Dos ângulos que o corpo me permite virar, e dos outros tantos que a mente insiste, vejo violência daquele lado, mas há violência em mim, tanto quanto neles. Há de tudo um pouco, e percorro-me com passos cautelosos feitos os de um cego, logo me jogo inteira com toda a afoiteza de um leão. Prever-se é impossível. Remediar-se, sim, talvez, mas evito. Toda aparente loucura e dor é também uma capacidade. Capacito-me inteira, como se estivesse me vingando de mim mesma. Salvo-me, também, à medida em que escrevo. Quanto aos lábios calados e aos olhos atentos, não acredite. Por fora sou só disfarce.

domingo, 2 de maio de 2010

Sou aqui fora uma, e aqui por dentro outras. Preciso ser muitas para que a náusea de mim mesma não me leve ao óbito. Mostro-te meu corpo desnudo com a casualidade dos que andam descalços, mas exponho-me em doses tímidas através da escrita, porque essa sim é a nudez absoluta. Não me admiram corpos com ou sem roupas. O que me atrai é o verdadeiro, seja ele reluzente, oco ou podre, e não se alcança o real sem que haja coragem. Por mais fraca que eu seja, atrevo-me.
Antes de ser mulher, sou poeta. Digo não pelos versos, mas tudo o que vejo, vivo ou deixo de, é poesia. Trágico, romântico, cômico, minha vida não passa de tudo o que a escrita permite, mas de nada consigo ser completa e em nada obtenho perfeição. Sou sempre um quase, e já me conformei com o roteiro, só não me proponho a acostumar-me e seguir. Sou avessa, e gosto.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pouco tem feito meus olhos brilharem. Pouco tem me gelado as tripas, pouco tem me falhado a voz. E então eu parei de vigiar o leite fervendo no fogo. Abri as janelas nas madrugadas amenas, escrevi sobre uma vida ainda não vivida por mim, apostei no desassossego, troquei as músicas, procurei detrás das palavras ditas. Daí uma emoção ressurgiu no meio das coisas mais banais, daí eu me vi diante de novos mistérios, daí eu reinventei todo o tédio que o óbvio te joga goela abaixo. Acordar antes de o sol dar as caras era uma prova de que ao redor tudo segue seu ritmo e, por dentro, tudo é descompassado, sem compromissos ou horários a cumprir. Sim, porque a graça brotou feito flor que nasce sem aviso, e isso é o que me vale. Me abasteço de emoções o tempo todo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Quero aqueles romances completos. Não me venha querendo devorar meu corpo porque irei devorar-te ainda além: comerei tuas entranhas invisíveis. Quero as pessoas inteiras, mas nem elas se querem assim. Por isso pasto. Como o adubo das noites quietas e sozinhas. Floresço numa conseqüência óbvia: sofro. E se cada dia sem você fosse entorpecente, eu estaria além da overdose. Posta como defunto na pedra fria. Levanto mais cedo, te faço um café. Volto pra cama, espero dar minha hora. Levanto no meio da noite, escrevo um verso que me saltou à cabeça. Lágrimas internas. Queria saber mastigar meu mundo: engulo-o todo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Foi naquele sábado cedo que descobri que não sirvo. Não para os mesmos lugares, as mesmas pessoas, os mesmos sofrimentos, as mesmas ternuras. Aqui tudo é plural.
Entrou, deixa a porta aberta que o mundo é meu achego. Quero para estes dias, sutilezas internas,
e o descompromisso de aturar tudo o tempo todo. Todo minuto é um: sou só começos.

sábado, 6 de março de 2010

Avisei-te ainda estes dias do tamanho perigo que era encontrar-me assim de olhar viajado. Não que em algum momento meus olhos anunciassem estarem cravados nesta terra, mas sim que, quando começam a dizer, é porque um dilúvio há de vir. E dizer não é como voar é aos pássaros. Ultrapassa todo o extinto e destina-se ao exercício. Alerto: é preciso muito mais do que um par de ouvidos para me ouvir. É o toque sem tato. E em mim sempre há algo pronto para nascer.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

“(...) Só então deixaria de culpar o humano e o inumano por minhas dores. Somente não sabia manusear a mim, e quem se propõe a se explorar, deve ter cautela consigo. Falta-me, antes de tudo, um encontro pacífico comigo.
Não faço planos ávidos para o futuro. Hoje tento cultivar somente o que ainda me resta de aproveitável. Seja bom, seja ruim. Pego-me desacordada com meu amontoado de vontades. Resta-me saber se de algo vale tudo isso. Tudo que quero, tudo que vivo, tudo que sofro. Se construo uma falsa eu para mim. Se minto, é para mim. E então, não me sei. Não sei de nada. É tudo muito complexo. Ou é simples, e há uma verdade. Só não a vejo porque enxergo adiante. E bato com a cara no muro, insisto no ilegível, espremo o inexprimível. Cada um tem sua verdade inventada. Não saber me torna ingênua de entendimento e atrevida de respostas. Sou como um animal faminto em busca da presa: minha presa é longínqua.”

Retirado de anotações pessoais.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Quando amo sou como plástico acerca do fogo: contorço, perco a forma, derreto. Me adéquo à aquele ser, como se o que carrego fosse dividido em outro corpo, como se o amor fosse capaz de unificar, transcender. Então, saio não somente como a mulher e seu sexo, mas sim como ser vivente. E vivo. Bebo até o último gole. Assim como morro, também tenho sede. Me amar, então, seria uma entrega e um recebimento, um afrontamento para o outro. Uma possibilidade escassa de acontecer. É tudo demasiado.
Enquanto carrego todo meu excesso, também muito me falta. É por isso que amanheço, planejo, espero: acredito no amor. Cru, virgem, inviolável. Como se fosse uma inquietação provável de me aquietar. É o que me mata, mas também o que me revive.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Às vezes sou tanto que me escapa das mãos o controle. De exato em mim, somente o inconstante. De muito mudo, de muito insisto em continuar. Seja doce, seja amargo, insisto. Conheço-me ao ponto de saber quando já não devo mais me encarar. Passo dias inerte no conforto que é não lembrar de mim.
Quanto mais a boca cala, mais a alma fala. Estou em constante movimento.
De carne, ossos, desejos, falhas, ausências, transbordamentos, relevos, excessos, medos, amores, olhares, desamores, nitidez,
mistérios, saudades. Tudo em mim é infinito enquanto dura.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Fiquei aos soluços horas a fio na varanda revezando silêncios e gemidos desesperados de dor onde não se toca, mas se fere. Me assusta encontrar diariamente coisas em mim que não sei explicar. É de se querer dar fim na vida quando as esperanças são decapitadas assim. Olho fixo para o distante e ardo na falta. Seria capaz de desistir de mim para ser com você tudo o que fui incapaz de ser sozinha. Te espero chegar como acaso do meu destino ou descuido do mesmo. Te encontro no sólido e no que não se avista. Tocou-me tão fundo que agora tudo é pouco. Espero sua chegada, espero minha vinda. Estou apartada do mundo, refugiada de tudo que não leva teu nome. Incapaz de balbuciar o amor de outro homem ou acreditar que passará para ser esquecimento. Tenho um passado ainda morno que às vezes me volta, e um futuro imenso que gero com a esperança de que nasça para me trazer gostos doces infinitos enquanto duro. Não culpo minha greve de felicidade pela tua partida, e sim por minha incapacidade de nunca nada que ainda seja desconhecido me bastar. E deito. Calo-me a voz e a mente, não por impulso, mas por obrigação. Preciso conservar o que ainda me resta de isento.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Preciso de belezas que me distraiam e simplicidades que me completem. Quanto mais vivo mais sinto saudade. As memórias são traidoras, hoje felicidade, amanhã morte. Não sei bem onde piso, só sei que sinto ausência na distância. Fecho os olhos e os aperto. Tenho a estúpida esperança de que quando os abrir tudo estará passado, sem lembranças ou remorsos. A cada instante pensado sinto extremos incompreensíveis nascendo em mim. Peço que para sempre seja tudo menos agudo, mas reconheço que ferir-se é também crescer. Sobrevivo de tudo que permanece aceso dentro e fora de mim. Quero ocasionalmente intervalos de tempo comigo. Preciso me lembrar de me esquecer antes que seja tarde demais. Dar-me um tempo de paz antes que tudo vire caos. Um dia hei de querer menos. Um dia hei de querer-me e só, sem complementos ou podas. Que a verdadeira busca é interna, e a resposta também.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Doce peso

Meu caminho é o mesmo, meu tempo é hoje e amanhã, juntos, sem remorsos. Falta em mim o que busco no mundo. Passam em mim todas as possibilidades de ganhos e perdas. Sei nem de mim nem do mundo, só sinto, só acho que passo perto da verdade: não há verdade. Sou de muitos sonhos e poucas palavras. Miro vidas, choro na minha solidão, aprecio o imaterial. Sou mulher no que faço e menina no medo que sinto. Não tenho ordem, só desordem. Conto minha história, paro, retrocedo. Em mim não há arrependimentos. De tudo espremo, de tudo aprecio, de tudo sofro. Já que hoje sou prisioneira de distâncias, vivo num mundo de pensamentos infinitos. De tanto que dizem, pouco ouço. Carreguei com ombros de inocência pesos de vidas gastas: sei de tanto assistir. Quero nunca deixar de ser inquieta. Minhas buscas vão além do que se enxerga, e o que sou também.

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