segunda-feira, 24 de maio de 2010

Lavo o rosto, turvo os olhos, borro os sentidos, viro a taça, percorro minha pele, desvio até ele, escrevo uns versos, teclo seus números, sussurro em francês, pauso o olhar, o corpo desmonta. Sou uma mulher indigesta. Tento, tento, mas não me livro de mim. Assisto aos rasos levando, mas não, me enveneno de tudo, quero o que me toque e me leve, e preciso desse estado, o estar só.
Tento despir-me dele, mas é inútil controlar o desejo, e que sejamos pra sempre emoção, jamais raciocínio. Vem, não sou mistério. Domo o falar, jamais o sentir. Sou violenta, casta e pacífica, entregue e recolhida. Acolha-me e tudo ficará mastigável.
Desequilibro ao anoitecer, distraio a saudade, rompo com o que me cabe e ouso também que algo mais me caiba, movo-me pelos sentidos. Sinto a memória feito lanças por dentro, e lanço-me toda no que acredito.
Fico aqui, te deixo à medida em que me esqueço. Preciso de uma abstinência de mim, de nós. Tenho me matado aos poucos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sofrimento me serve de equilíbrio. Emocionalizo o raciocínio, racionalizo a emoção. A escrita me escorre pelos dedos de acordo com minha necessidade de desassossego. Cavar-se fundo e provar de outros é como dependurar-se com meia dúzia de dedos num abismo com vista para o paraíso. Chacoalho o corpo como se a queda jamais fosse me acontecer. Vezes uns dedos me escapam, vezes me embriago com a beleza da vista.
Dos ângulos que o corpo me permite virar, e dos outros tantos que a mente insiste, vejo violência daquele lado, mas há violência em mim, tanto quanto neles. Há de tudo um pouco, e percorro-me com passos cautelosos feitos os de um cego, logo me jogo inteira com toda a afoiteza de um leão. Prever-se é impossível. Remediar-se, sim, talvez, mas evito. Toda aparente loucura e dor é também uma capacidade. Capacito-me inteira, como se estivesse me vingando de mim mesma. Salvo-me, também, à medida em que escrevo. Quanto aos lábios calados e aos olhos atentos, não acredite. Por fora sou só disfarce.

domingo, 2 de maio de 2010

Sou aqui fora uma, e aqui por dentro outras. Preciso ser muitas para que a náusea de mim mesma não me leve ao óbito. Mostro-te meu corpo desnudo com a casualidade dos que andam descalços, mas exponho-me em doses tímidas através da escrita, porque essa sim é a nudez absoluta. Não me admiram corpos com ou sem roupas. O que me atrai é o verdadeiro, seja ele reluzente, oco ou podre, e não se alcança o real sem que haja coragem. Por mais fraca que eu seja, atrevo-me.
Antes de ser mulher, sou poeta. Digo não pelos versos, mas tudo o que vejo, vivo ou deixo de, é poesia. Trágico, romântico, cômico, minha vida não passa de tudo o que a escrita permite, mas de nada consigo ser completa e em nada obtenho perfeição. Sou sempre um quase, e já me conformei com o roteiro, só não me proponho a acostumar-me e seguir. Sou avessa, e gosto.

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