sábado, 17 de dezembro de 2011

Agraciada

faz tempo que eu não me encanto
pelo que vejo no espelho
por quem vejo na rua
e até mesmo por quem já me viu nua
sofro de desencantamento agudo
do mundo
por isso mudo
até perder o sentido
sinto muito, homem
mas eu sinto muito

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meu corpo insatisfeito
pede mais sem nem saber o que quer
muda de cidade
e não se resolve
não se pacifica
não se acalma
não se doma
não se arruma
não se ruma
ama os que não o amariam
não pede trégua
se arrisca solitário
querendo o risco
querendo o corte
querendo a morte
de todas as agressões
de tudo o que fere
sem saber
que se fere sozinho
louvando o impossível
incompatível
sensível
irredutível.
Meu corpo quer o conforto
de não precisar de mim.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Carnavália

Já sei porque é que não me dou com essa gente. Eles chegam sempre querendo me desvendar, tirar de mim, me arrancar, me revirar do avesso, saber meu nome, meu endereço, e vão, subjulgando meus silêncios, fazendo termos de responsabilidade pra minha loucura assinar, tirando meu vocabulário, me querendo católica, cristã, sem sexo, sem nome, com vergonha das minhas verdades, mocinha de novela das seis, filha boa, não anarquista, nada de discurso idealista, extremista, de revista. Eu escarro tudo o que abrigo, e não sei lidar, eu não sei me comportar, o acidental por acaso sempre me aconteceu. Sozinha de solidão sem solidariedade própria, acho que te amo, acho que vim pra te amar, pra deixar de precisar, nem sei mais beber, não agrado, não amo, nenhum romance me convence, essas amizades descartáveis, essa família que não me aceita, esse mundo reversivo se revertendo no meu estômago. Faço figas comigo. Fico procurando minha função, meu destino, menino, só pode ser teu nome, entre meus dentes, mordiscando a ponta da minha orelha, puxando meu cabelo com as mãos, eu fico aqui me perguntando se isso é o que me salva, me safa, não me trai, não me intriga, não me chama, não me arrisca. Sou inventiva. Sou inventada.

domingo, 20 de novembro de 2011

Contradicción

espero um telefonema
do outro lado do continente
aliso os dentes com a língua
aperto o bico dos seios
com a ponta dos dedos
me distraio na noite
com qualquer porcaria estrangeira
divagando devagar
qualquer coisa que lembre
voz grossa
tipo canalha, insólito
do jeito que meu sadismo gosta
olho por olho
acho que não me vê
tua boca sequer
sabe pronunciar meu nome
deixo um aviso dependurado
no espelho do banheiro:
"entra em mim.
se ao contrário eu entrar em você,
não saio mais"

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Em geral silenciosa
ou verborrágica
não escolhi o sossego
preferi destrinchar perguntas
sem respostas.

Reviro em cólicas
orgulhosa
achei que pudesse controlar
enfileirar memórias
escolher rostos
ponderar tolices.

Me abri demais
para uma vida sem sentido.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Passagem

se amo
ou não presta ou me despreza
se me ama
desprezo por não prestar
não me dedico
não me concentro
não me dou trégua
me desaproprio cordialmente
de qualquer gratidão à mim
insisto a todo custo
atraio e conservo vorazmente
aquilo e aqueles
que me destroem


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Quanto


Não posso falar de morte ainda
e nem deixar que prevenham
minha vida
numa página de jornal qualquer
porque o destino bate e volta
incerto e obsceno
não acredito em divindade
acho que sou demais desprevenida
(se aceito sou santa
se condeno sou vadia -
prefiro levantar a saia)

É certo que há fim
mas não finalidade.

É covarde como pintam a vida.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ofício

nunca fui filha
fiz favores

nunca fui amante
substituí mulheres

nunca fui amiga
fiz caridade

nunca fui eu mesma
fiz céleres personagens

sou uma bicha sem melindres

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O que quiser

não tenho medo
em ser devassa
puta
ou depravada
não tenho medo
em não ter deus
não tenho medo
de não ter pai
meu maior medo
é conviver comigo
de frente pro espelho
fazer as pazes
engolir seco
ter de enfrentar
e não ter pra onde correr
ter que conviver
sem saber o que fazer
se viro monja
se viro mãe
se viro amante
se viro ordinária
ou se me relato
em versos baratos
e me viro com o que há
de mim
que me pensem
como quiserem
que não me penso
me evito
quando me encontro
desvio
mudo de calçada
ponho meu ray-ban
pego atalhos
finjo não conhecer
perdi a coragem própria
em alguma esquina
enquanto me dava pro vento
enquanto inventava formas
de me safar

engravidei de mim

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sol Escuro

não tento mais
me dar aos bons exemplos
nem me faço de contente
passando a língua pelos dentes
satisfeita com o jantar
e o que há de vir depois
a vida casual que corre
e não me liga no dia seguinte

acho que pessoas
são enfeites
na vida das outras pessoas
badulaques
adornos

acho que me levo a sério
ponho tudo nos ombros
carrego fardos
exijo soluções

o que faço às vezes
é fingir alegria
esquecendo meu nome
e dogmas que inventei

sou o que resta do resto
de uma verdade inventada

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Enfático

Meus pressentimentos falham e não me calo quando devo. Sou demais vulgar que me entrego a quem for entre palavras. Sento no caos, faço promessas que não cumprirei. Esqueça se um dia eu disse ser compreensivamente mulher. Não sou. Existe uma espécie de culpa que dá em ser humano. Culpa por não valer, pecar, saber que faça o que fizer, teremos fim e o fim é escuro e profundo, um nada branco imenso enigmático - somos, sou. Não me sujeito ser óbvia mas sou. A humanização me fez assim. E as memórias mofam e apodrecem na gente. Regem e formam sequelas. Sou uma consequência. Gosto de estar nua e me surpreendem os corpos. Nudez para mim não se trata de sexo, e sim de coragem. Uma coragem absoluta não-cristã de se suportar sem adornos. E olho os corpos de quem amo como se fossem as únicas verdades que eles tivessem. E me olho como se fosse mãe, filha mal caráter e uma amante que não se concentra. Sou péssima. Te amo mas não me dedico. Acumulo inventos. Cada um faz um plano pra se safar. Constrói mentiras, encena verdades. Converso horas longas com meus pensamentos e não chego a conclusões.
O amor neutro é frouxo. O amor tem de pedir de joelhos, ter opinião e ter fome. E não tenho nexo. Me encaixo em filosofias e não me encontro em nenhuma - nenhum. O melhor estado é o de não estar, apenas. A felicidade é uma tortura, pedra de gelo em mãos quentes. Não ter sentido é uma espécie de de êxtase para mim.

domingo, 18 de setembro de 2011

I put a risk
under my chest.
It has your name
crossing my fingers
diving between my brest
the smell you left inside my nose
the swing your tongue does
on my back.
My body asks for heart.
So I don't love you, love.
I'm just replacing sorrow.
You don't love me, love.
You are just placing vains.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Conotação

É bem como se o amor não fosse afetuoso, e sim um criminoso. Me passa a perna, me estupra o íntimo, me rouba o valor, atiça meu áspero e cinzento ódio. Somo errado, jogo-me inteira, não pondero, não espero. Eis que antes achava que era entrega. Hoje acho que é extorsão. E vos digo que já tentei ser promíscua: não adianta. Sofro por um só, amo como se fossem muitos, em doses cavalares. Amo nos outros o que não sei ver em mim. Projeção barata. Não sei nada. Nem adianta me perguntar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

minha missão é me safar de mim
assim
sorrateira
afasto as coxas
bato na mesa
varro o chão
suspendo censuras
suspensa no ar.
eu quero o indizível não cabível impalpável
chega de colonialismo e bons modos
me arregalo ao que não sei dizer

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Impugnante

aqui
ângela ro ro
frio no calcanhar

pedro pendurado no telefone
pedi um tempo
me liga cobrando
agora não posso
passo a vez
levo três tempos pra pegar no tranco
i'm out of my senses
meus crimes são passionais
minhas alegrias também
e não são minhas
essas
e não sou minha
essa

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Crônica da falta que move.

Sou esquentada. Bato na mesa, engulo silêncios, cuspo idéias. Eu acredito em olhares. Até o dia em que me olharam como se me comessem, e não significou nada além daquilo. Desacredito, então. Passo a saber lidar menos com os homens. Me dou aos animais, acho que me conhecem. Não acredito. Acredito. Achei que se esquecesse - ou fingisse esquecer, amaria outros. Amar como quem gera um filho. Amar como quem quer ser amado. Talvez ninguém precise do outro para se sentir amado. Eu sim. O amor próprio é um espinho nos olhos. Eu preciso da gente, da multidão, do silêncio absoluto, do telefonema, da mesa completa, da casa vazia, da falta, da cama quente, da manhã. De certo o amor não é burrice: é inocência. Vontade, entrega, contemplação. Aqueles dias vivi tanto que me esqueci. Daí vem meu êxtase necessário. Só quero me lembrar de mim quando escrevo. A vida incompreensível me veste as pernas. Não sei dizer. Meu filho, depois é tarde demais. Quero tudo e quero sem tempo no relógio. Minha pressa me morde os lábios. Deixo meu endereço, meu cheiro nos teus lençóis, pausa na loucura, choque de mim. Se o que for sendo tiver sido, não sei ser. Insisto em destrinchar acontecimentos. Sou curiosa. Nunca terei respostas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Júbilo

Ele me diz:
"why so far away, honey?"
e eu retruco que é minha natureza
intolerante
esvoaçada.
Mentira
é aquele outro homem que passou
e me levou faz tempo
pra onde eu não sei
culpo ele
mas sou eu grande desencontrada
quero me achar de volta
recolher caquinhos
juntar pedaços
tremer mãos e idiomas
por outro
mas sou fraca
a desenhar navios no ar
poluindo minha respiração
com a fumaça do teu cigarro.
Ainda acredito piamente
que a melhor parte
é justamente
não fazer parte.

sábado, 6 de agosto de 2011

Janela

o que me chega é pouco
sempre encardido esse querer
cuspido no asfalto
com cheiro de malboro red
lábios secos e barba a fazer
minha pele lisa não merece tua aspereza
meu amor próprio tem as pernas quebradas
morrer é preciso todas as noites
mas nascer no dia outro faz-se obrigatório
e eu fico como feto no útero
me gerando
sem parir nem abortar
cresço involuntariamente.

admito: só louvo o que me bate na cara.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Harmônico

não me encaixo
obviamente
terminantemente
terrivelmente
delirantemente
nenhuma
em caso algum
homem
mulher
cidade
apartamento
cama
sofá
bar
calça jeans
sapato alto
acho que minhas medidas
são proporcionais
à minha alma
não tem proporção
nem cabimento
sou caso perdido
irregularmente convivo
não condizo, apenas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

São Paulo, 15/08/2011

Ele me disse aos gritos que não suporta minhas contradições. Meu jeito hora escritora, hora menina, hora mulher, hora bicha, meio desbocada, de goles largos, silenciosamente secreta de tentações. Não tenho argumentos para me defender. Calei desatenta areando panelas, fiz ar de soberba, inocente, falei no diminutivo, aumentei levemente o tom da voz. Feito carne entre os dentes. Tirar do sério é meu encargo - próprio e alheio. Deitei no canto do sofá encolhida, um tanto sem vergonha ouvindo absurdos. Sou reversiva, altiva, cachorra no cio, cachorro filhote sem mãe. Tenho o péssimo hábito de me escrever para ver se defino: inútil. Não há definição racional que me console. Exuberantemente faleço. Tripas desdobradas, rosto azedo de frente para o espelho. Quero tempos antigos e quero mudanças. Quero um homem que me ame e outro que me bata na cara. Volto ao zero. Contradigo tudo o que me remete. Não sirvo. Não soluciono. Adianto: tudo o que me toca vira verso. Sobretudo meu pobre excesso humano.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Acanho

A escrita quando foge
é algo como a mudez
coma temporário
e quando decide voltar
arranca troncos
distorce fios
chuta crianças.
O que em mim não for prematuro
de certo será punido
pela minha sanidade gasta.
A escrita quando nasce
usa seu corpo pra escarrar verdades.
De antemão pressinto:
não sou eu quem me governo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Interlúdio

Sou outra agora

nova

cretina de amores sim

mas não mais devota

nem benevolente

sou humana nas ruas

e poeta na cama

porque não quero que me vejam nua

nem que me adentrem

que me julguem ou me consertem

quero meu erro sangrando na língua

meu silêncio coçando nas tuas orelhas.

O que me estraga é ser mulher

e se fosse homem seria o mesmo

sujo canalha ríspido raso.

Suplico: não quero mais ser humana.

domingo, 3 de julho de 2011

Sintáxe

Ultimamente nada tem impressionado ou sido suficientemente interessante. É esse meu hábito de querer a multiplicação dos acontecimentos. E eu quero que tudo que é medíocre cesse e me arraste para o novo, mas tenho medo desse imenso e desconhecido será-o-que-virá. Porque eu preciso de porquês. E de soluções, brechas, argumentos. E num fundo nem tão distante, a mediocridade está em mim e em tudo, porque é impossível se livrar da pobreza humana de espírito. Volto a me fazer refém de mim. Invento um amor pra poder culpar. Acredito nas minhas próprias mentiras e temo minhas próprias verdades.
Quero ter membros em seus devidos lugares. Quero um coração amorfo. E quero beber todos os goles e lamber todas as gotas de emoção que existem no mundo. Mas não posso, sou fraca. Cresço involuntariamente retorcida e minhas necessidades mudam de acordo com meus luxos e minhas fraquezas. Todo luxo é uma fraqueza. Sou escassa e sou abundante. Sou tremenda covarde. Não sei estar indiferente e esse é meu maior pecado. Gosto deles, quero todos e invento outros. Não há nada maior num ser do que sua capacidade de se meter nos mundos. O mundo não tem forma e nem encaixe. Digladio com minha falta de forma que não cabe e nem comporta. Sou o mundo e também sou volume. Mais uma na tua vista, na tua estante, no teu ventre, na tua mesa, na tua cama, na tua agenda. E somos todos.
Mal preciso de Deus à espreita para me ordenar castigos. Castigo à mim mesma com meus modos e me recuso a acreditar em mentiras outras. Quero as minhas e já é suficiente. Quero ser profunda sem cair em minhas valas. Não peço perdão e não me arrependo. Repito antes de dormir: "Não tende piedade dessa. Tende distância e cuidado, amém".

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sou dessas que se faz de uma pra ser outra, e assim sucessivamente. É de provocações que vivo. As lembranças me atravessam a todo instante. Ainda não descobri a utilidade dos meus ouvidos que não seja para aquela voz e alguma música. Não ouço aos outros. E vejo seletivamente, em instantes. Meu instante é breve e pulsa longo, sem fim. Meu tempo não caminha: corre, tropeça, rala, rola. Não tenho freios. Quero minhas verdades escancaradas me atiçando o pulsar.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

ando sem paciência
atravessando a avenida
no cantinho da calçada
sentada no meio fio
pressa de ser
cansaço próprio
de insuficiência
verso sujo
verbo escarrado
não aguento mais
minha poesia
e a falta dela
e a dele
e a minha.
não me sobra nada:
fico resto.

sábado, 25 de junho de 2011

nesse apartamentozinho inho inho
no meio da vila olímpia
aviões furam meus tímpanos
a vizinha grita
ronco de motor
o telefone não toca
sofá duro
tela na janela
quero me jogar por ela
através dela
por ele
por mim
nesse mar de gente
sou gota
que transborda
sufoca
tem sede
fica seca
pede sexo
quer amor
não tem ninguém
é só de solidão
com tanta gente me apontando o dedo
pra me dizer que não
pra me bater na fuça
eu quero céu
eu quero ar
eu quero espaço
eu quero querer imenso
paz miudinha
meu cantinho
ninho
eu de volta
morrendo de amor
pra me sentir viva
vida ardida na genviga
quero tudo pra ser construído.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aqui não chove mais. O tempo é seco e frio, mas faz sol. Tenho morrido mais rápido esses dias. Vejo o céu por uma fresta na varanda. Tem prédios ao redor, aviões passando. O útero reclama, dói em pontadas. Durmo mal. No banco detrás do táxi me dá vontade de chorar. Sozinha, de madrugada. Olho os carros, as pessoas dentro deles, os homens de rua nas calçadas. Eu queria te dizer que sinto falta. Só depois que me mudei para São Paulo entendi Nelson Rodrigues. Amar é ser fiel a quem nos trai, sim, mas antes de tudo a companhia de um paulista é a pior forma de solidão. Cumpro os dias sem rotina me arrastando calada. Não quero falar e nem posso. Minha escrita anda rala, não amo mais aquele, nem outro. Não procuro mais rostos na rua. Faço confissões ao segurança do bar. A faxineira aqui de casa diz que se vê em mim. Eu tenho a pior forma de lidar com o mundo: os sentidos. E eu não me interesso mais. Pior do que sofrer é não sofrer. E a vida apática te recebe lânguida todas as manhãs e te tira o sono à noite. Viver aperta no calcanhar. Afrouxa na cintura, arde no olho. Nada cabe. Não sei nem mais o que sinto. Não dou nome. Não quero salvação: quero a queda célere no meu abismo e nos outros também. Quero os pelos do corpo arrepiados e a boca seca. Quero pulso acelerado e frio no umbigo. Quero voltar a me querer.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Convite para o lançamento de "Amores Brutos".

A Editora Patuá e a Livraria Capítulo 4 convidam a todos para o lançamento do livro de poemas "Amores Brutos", de Melina Flynn.

O lançamento será realizado dia 18/06 - sábado - às 20h - na Livraria Capítulo 4, Rua Tabapuã, 830 - Itaim Bibi - São Paulo - SP. A entrada para o evento é gratuita e o livro estará à venda pelo valor de R$30,00. O livro pode ser previamente comprado através do site da editora aqui .

(Amigos e leitores de outras cidades ou estados que não puderem comparecer ao lançamento podem realizar a compra pelo site da Editora Patuá e receberão o livro autografado após o evento).


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Entrevista ao PodLer Podcast Literário

No quinto episódio do PodLer, a escritora Melina Flynn conversa com Pablo, Luke e Tatu sobre o seu livro de poemas Amores Brutos, sobre o seu processo criativo e muito mais. Amores Brutos tem prefácio de Rafael Cortez, repórter do CQC, e será lançado no dia 18 de Junho, sábado, na Livraria Capítulo 4 (Itaim Bibi, São Paulo). Mais informações no Blog da Melina Flynn e no Site da Editora Patuá.

A entrevista está disponível no blog do Livros Brasil. Para acessar, clique aqui . E também na página do Facebook do PodLer, aqui.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Viagem

Anuncio aos quatro cantos
em meio ao meu silêncio rústico:
não amo mais
mas tenho amor.
Ponho a mão no peito
e pulsa
por ordem de vida
pelos meus modos ardidos
e minhas memórias fétidas.
Me lembro de tudo
como se morresse de tanto
e de tão pouco
faço pergunta
e não tenho resposta
gero um filho
amo outro homem
acordo cedo
concedo lugares
cedo sorrisos
tarde me deito
tardo a deixar-me
e não sei o que sou de mim
nem o que será do que sei ser.
Não tenho ninguém
e ninguém se tem.
Quero descanso.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Amores Brutos

Sete meses. Rasteiras do acaso, felicidades do acaso, acontecimentos e a falta deles, madrugadas adentro, dias trancada no apartamento frio, livros, rascunhos, encontros, telefonemas, esperas. Minha fraqueza, meu medo, desejo, amor, angústia, beleza, fome e minhas saudades viraram poesia. Sou humana. Nasceu prematuro, como tudo em mim. Gerei e pari meu bem e meu mal. Sou eu na estante em versos, explícita, nua, mulher, menina, animal, mãe, objeto.

O livro já está disponível para venda no site da Editora Patuá. O lançamento ocorre no início de junho aqui em São Paulo. Depois anuncio data, local e hora. Todos estão convidados.


Amor,

Mel.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Miséria

As gentes me ferem
quando falam de si
e eu me ponho em soluços
porque sou demais minha
e sei tanto de mim
que é como labirinto:
já não tenho saída.
A suficiência não está
em se pintar por fora
pra se fingir por dentro
assim estou crua
de pés pelados
arranquei a roupa da vontade
e me coloquei pra descansar
entre lençóis brancos
sentindo teu cheiro de chuva
pedi antes que me levasse pra casa
me desse um filho
e três dias te olhando de graça.
Acabei entreaberta
me esfregando na saudade.

Ps: Mais de mim no site da Editora Patuá.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Vinicius

A avó canta
em manhã de sol frio de outono
rádio no tanque
ruga nas mãos
"porque foste em minh'alma
como um amanhecer
porque foste
o que tinha de ser".
Anos depois
meu corpo de mulher vira tábua
boca muda
língua seca
nojo dele
"porque tu me chegaste, sem dizer que vinhas"
bati a porta na tua cara
cheguei toda arrependida
frígida
vazia
contanto os carros na avenida
quero voltar ao que era
quero me reaprender.

sábado, 30 de abril de 2011

Numa esquina.

Ah, Deus, como estou suja. Suja torta escarrada no canto da calçada. Sou um viés que usa voz doce e me crêem humanamente cabível. Sou oposta: humanamente incabível. O acaso se trata de me socar o estômago e a cara pra me dizer em voz e em olho que sou nada. Absolutamente um nada imenso. Me passa o mundo no peito mas não posso me deitar ao lado do sossego porque não aprendi a ser contada nos dedos. As notícias são as mesmas, os homens cretinos, as mulheres estreitas, a manhã doída, a noite longa, a falta imensa. A vida me exige uma e eu me quero outra. Tudo é mentira. Quero me aprochegar no que não me peça, só no que me precise. Quero calma sem saber ser calma. Quero me lavar de dor antiga. Quero sempre ir embora.
No quarto escuro escrevo segredos porque me faço esfíngica. Sou cachorra. Sou tão anônima quanto um banco de bar. Vejo cor em tudo e tudo me devolve breu. A culpa é cristã e eu me valho de pecados. Queria teu rosto bonito me encarando de frente todos os dias pela manhã. Melhor dar-me à mim, jamais em doses avassaladoras. Preciso me vazar pelo conta gotas ou tenho overdoses íntimas. Posso querer estar em coma porque viver não passa de obrigação. Posso querer chutar o balde e voltar de quatro pra casa. A manhã nasce e eu quero nascer com ela todos os dias. Sem teu cheiro, desmemoriada, sem ser filha distante, sem ser amante fria, sem ser adulta, sem ser eu.
Onde é que aposento minhas dores sem respostas prontas e conselhos imundos? Como atraco meu cansaço próprio em qualquer canto? Ou meu corpo vai todo ou meus dedos não se atrevem a pisar. Ou te ligo amanhã vomitando memórias ou me tranco em silêncio. Depois caso, tenho filhos, escrevo três livros e ainda me dizem como tenho de ser. Nunca vou ser. Quero me curar de mim sem me untar da presença de outros. Não como, não durmo, não presto atenção. Quero ser livro longo de páginas brancas.
Quatro e cinco da manhã de uma noite devassa que me virou de ponta cabeça de uma vida que me passa rasteira. Perplexa, imunda, malandra, delicada, comedida, pequena, imensa, contraditória. Não tenho saída.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cheio

Passam carros
eu miúda
na tua mão
vergonhas pra fora na avenida
contramão
sou até bonita
meio estática colorida amedrontada
não tenho cunho pra tua canalhice
por isso te gosto quando me gosta
ponta dos dedos
dentes afiados
me perco sem nunca ter me achado
só me descobri impossível
não gosto das rédeas
me quero aguda
na tua gengiva
fazendo arte
brotando pra fora
achando socorro.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Austera

devagar rabisco
entre as linhas da mão
nome canção e poesia
e me sento nua na banheira
deixo cair a água molhar
a tinta da caneta escorre nos braços
deus não existe
e eu peço aflita
devora-me
ou devoro sozinha a mim mesma

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Los Versos del Capitán

"Amor mío
compréndeme
te quiero toda
de ojos, a pies, a uñas
por dentro. (...)
No me temas
soy tuyo."

Pablo Neruda, La Pregunta.

Sofrer de amor pra não sofrer só pelo que se é ou se deixou de ser. Tenho sido tanto.
Tanto e tão pouco.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Olho pro meu pulso
como se meu pulso
pulsasse o tempo
mas meu pulso
só pulsa
sentimento.



* Pra que dormir se hoje eu acordei mais minha?

quinta-feira, 31 de março de 2011

É preciso que eu me tranque mais dentro de mim
sim
é preciso que eu me contente com meu próprio rico
vão
é preciso que eu olhe menos ao redor pra não te ver
perfeito
barba cerrada
olho no olho
sorriso displicente
me estende a mão
me enche o copo
me nina plácido
é preciso que eu não me jogue nesse abismo que é tua
boca
é preciso que eu seja desmemoriada e menos
impetuosa.
Sou mulher-coisa
mulher-caos
mulher-tua
a dor do relógio
a espera nas costelas
o silêncio do não saber.
Eu quero que o meu corpo se livre do mundo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Esperança Cansa

A vida faz o amor, ou este faz a vida?” foi o que Shakespeare indagou na cena II do ato III de Hamlet. Foi o que hoje, sentada de pernas cruzadas no sofá, eu sorrateiramente passei os olhos e me nasceu uma matilha na garganta.
Acordei cedo, quase com o sol. Seis horas minhas pernas já estavam estendidas andando pela cozinha. Procurando o pó de café, ligando a televisão para o jornal. Tem dor que tira o sono. Tem dor que não cabe no peito da gente.
Eu sei que sei ser menos. Eu quero menos. Menos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

I

Quero chapar a cara
de amor que nutra
e me diga hoje
que me quer amanhã.

II

Perdoa minha ingratidão suja
de menina-mulher abismada:
meu desespero é árido
de cabeça erguida
peito arfado
e olho no olho.

Não sou nada e minha culpa é a de viver tentando.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

São Paulo, 17 de fevereiro de 2011.

Caros leitores,

Como alguns já sabem, há tempos estou escrevendo meu livro. Agora estou num momento crucial: o fim. Já tenho um prólogo impecável presenteado por um amigo também escritor, mais de quarenta poemas inéditos - cada vez mais íntimos e lacerantes - e revisão de amigos jornalistas e dramaturgos. Pois bem, agradeço aos que frequentam esta página, me escrevem, me seguem no Twitter ou apenas silenciosamente lêem.
Atualmente me dedico à três coisas: o teatro, minha casa e meu livro. E sim, cada poesia escrita é um peso que morre e outro que nasce. Peço, sobretudo, paciência.
Tenho lido muito para compor, além de ter me trancado ainda mais em mim. É um processo delicioso que desnorteia. Com isso, aproveito para deixar mais uma vez meu e-mail e um outro recado: sintam-se livres para me escrever. Essa troca é essencial. Perguntem, questionem, opinem, expressem.

Um abraço,

Melina.

Contato: melinaflynn@gmail.com

domingo, 30 de janeiro de 2011

26 de janeiro, 11:48 pm.

Vim sozinha e sozinha irei. Cheia de pose, cor nas unhas e nos lábios, olhos falantes e que chamam, lágrimas derrubadas por um amor só meu: ele nunca me amou. Sou uma corrida para chegar ao nada imenso. Tragicamente sou, e só assim posso existir, através do meu próprio fracasso. Sou atriz de mim mesma.
A foligem do mundo cai sobre mim e me alimento disso. Da vontade de querer um corpo somado a uma alma e da qualidade de ser plural na santidade e na loucura. Meu mal sou eu.
A música toca, o vento sopra, o chá borbulha, o cigarro queima. Preciso do estrago para sentir que há a reparação, e recomeço, das minhas próprias cinzas, velando minha tristeza, chacoalhando meu corpo e sentindo a vida me adentrar pelos poros. É por isso que tenho estômago resmungão e olhos famintos. Tenho asco da vida tal como ela é. Procuro, arranjo e quero sempre mais. Me meto no perigo porque quero a plenitude de toda a miudeza.
Quero ir com a corrente mais leve, mais solta, mais clara. Ah, como me pesa viver. Já não me suporto mais em nada.
Minha vida é essa: eu tentando me desmistificar a mim.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Paralelo

Numa esquina, num táxi,
numa segunda-feira à noite, no meio do cigarro,
ao levantar da cama:
me descabelo por um amor que não existe.
Ele se ruma sem saber que sofro e
minhas pernas lisas correm ao seu oco encontro.
Uma alma que quer voar se enrosca no amor.
Minha carne é volcânica.
O mundo está em mim e eu finjo estar nele.
No meu íntimo há outros íntimos.
Sou doce e ardo entre os dentes.
Sou tantas e quero ser outras.
Sou virgem e sou promíscua.
Sou leve e sou penosa.
O que tenho não me supre.
Sinto aos montes e vivo sedenta.

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