sábado, 30 de abril de 2011

Numa esquina.

Ah, Deus, como estou suja. Suja torta escarrada no canto da calçada. Sou um viés que usa voz doce e me crêem humanamente cabível. Sou oposta: humanamente incabível. O acaso se trata de me socar o estômago e a cara pra me dizer em voz e em olho que sou nada. Absolutamente um nada imenso. Me passa o mundo no peito mas não posso me deitar ao lado do sossego porque não aprendi a ser contada nos dedos. As notícias são as mesmas, os homens cretinos, as mulheres estreitas, a manhã doída, a noite longa, a falta imensa. A vida me exige uma e eu me quero outra. Tudo é mentira. Quero me aprochegar no que não me peça, só no que me precise. Quero calma sem saber ser calma. Quero me lavar de dor antiga. Quero sempre ir embora.
No quarto escuro escrevo segredos porque me faço esfíngica. Sou cachorra. Sou tão anônima quanto um banco de bar. Vejo cor em tudo e tudo me devolve breu. A culpa é cristã e eu me valho de pecados. Queria teu rosto bonito me encarando de frente todos os dias pela manhã. Melhor dar-me à mim, jamais em doses avassaladoras. Preciso me vazar pelo conta gotas ou tenho overdoses íntimas. Posso querer estar em coma porque viver não passa de obrigação. Posso querer chutar o balde e voltar de quatro pra casa. A manhã nasce e eu quero nascer com ela todos os dias. Sem teu cheiro, desmemoriada, sem ser filha distante, sem ser amante fria, sem ser adulta, sem ser eu.
Onde é que aposento minhas dores sem respostas prontas e conselhos imundos? Como atraco meu cansaço próprio em qualquer canto? Ou meu corpo vai todo ou meus dedos não se atrevem a pisar. Ou te ligo amanhã vomitando memórias ou me tranco em silêncio. Depois caso, tenho filhos, escrevo três livros e ainda me dizem como tenho de ser. Nunca vou ser. Quero me curar de mim sem me untar da presença de outros. Não como, não durmo, não presto atenção. Quero ser livro longo de páginas brancas.
Quatro e cinco da manhã de uma noite devassa que me virou de ponta cabeça de uma vida que me passa rasteira. Perplexa, imunda, malandra, delicada, comedida, pequena, imensa, contraditória. Não tenho saída.

6 comentários:

Débora Gomes disse...

Livros longos paginas em branco... Acho que essas paginas nao passaram ilesas pela tinta da paixao e do descontentamento... o que importa e que a biografia seja escrita com sangue e com o suor da reflexao.

Beijos, querida, desde CAmbrigde,UK

apaixao-desconceito disse...

Você é entrada e saída. Não há quem te "precise", mas há quem te acolha sem exigências.
Feminino, intenso, belo.
AP

Carolina Calmon disse...

"A vida me exige uma e eu me quero outra. Tudo é mentira. Quero me aprochegar no que não me peça, só no que me precise. Quero calma sem saber ser calma. Quero me lavar de dor antiga. Quero sempre ir embora."

Perfeitamente bem expressado.
Fiquei com dúvida em que trecho me identifiquei mais.
Amei o texto. :)

Beatriz Fig disse...

Mais um maravilhoso!!

Mayara Almeida disse...

Nossa! Quanta coisa num texto só. Poderia ser chamado de: vida, mas "Numa esquina" é também onde tudo se encontra, gostei.

Bjs.

Ana disse...

Disse tudo

Absolutamente tudo.


" A vida me exige uma e eu me quero outra".

É incrível como me encontro nas suas palavras.

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