segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aqui não chove mais. O tempo é seco e frio, mas faz sol. Tenho morrido mais rápido esses dias. Vejo o céu por uma fresta na varanda. Tem prédios ao redor, aviões passando. O útero reclama, dói em pontadas. Durmo mal. No banco detrás do táxi me dá vontade de chorar. Sozinha, de madrugada. Olho os carros, as pessoas dentro deles, os homens de rua nas calçadas. Eu queria te dizer que sinto falta. Só depois que me mudei para São Paulo entendi Nelson Rodrigues. Amar é ser fiel a quem nos trai, sim, mas antes de tudo a companhia de um paulista é a pior forma de solidão. Cumpro os dias sem rotina me arrastando calada. Não quero falar e nem posso. Minha escrita anda rala, não amo mais aquele, nem outro. Não procuro mais rostos na rua. Faço confissões ao segurança do bar. A faxineira aqui de casa diz que se vê em mim. Eu tenho a pior forma de lidar com o mundo: os sentidos. E eu não me interesso mais. Pior do que sofrer é não sofrer. E a vida apática te recebe lânguida todas as manhãs e te tira o sono à noite. Viver aperta no calcanhar. Afrouxa na cintura, arde no olho. Nada cabe. Não sei nem mais o que sinto. Não dou nome. Não quero salvação: quero a queda célere no meu abismo e nos outros também. Quero os pelos do corpo arrepiados e a boca seca. Quero pulso acelerado e frio no umbigo. Quero voltar a me querer.

3 comentários:

Mayara Almeida disse...

Adorei esse Melina.

Will Carvalho disse...

Me derrubou. Sem mais.

Júlia Brum disse...

pensei q depois de tantos textos lidos não houvessem mais esses com capacidade de me chocar pela beleza, e acabei de descobrir que eles existem, depois de ler este teu texto. E é tão bom descobrir isso.

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