quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Carnavália

Já sei porque é que não me dou com essa gente. Eles chegam sempre querendo me desvendar, tirar de mim, me arrancar, me revirar do avesso, saber meu nome, meu endereço, e vão, subjulgando meus silêncios, fazendo termos de responsabilidade pra minha loucura assinar, tirando meu vocabulário, me querendo católica, cristã, sem sexo, sem nome, com vergonha das minhas verdades, mocinha de novela das seis, filha boa, não anarquista, nada de discurso idealista, extremista, de revista. Eu escarro tudo o que abrigo, e não sei lidar, eu não sei me comportar, o acidental por acaso sempre me aconteceu. Sozinha de solidão sem solidariedade própria, acho que te amo, acho que vim pra te amar, pra deixar de precisar, nem sei mais beber, não agrado, não amo, nenhum romance me convence, essas amizades descartáveis, essa família que não me aceita, esse mundo reversivo se revertendo no meu estômago. Faço figas comigo. Fico procurando minha função, meu destino, menino, só pode ser teu nome, entre meus dentes, mordiscando a ponta da minha orelha, puxando meu cabelo com as mãos, eu fico aqui me perguntando se isso é o que me salva, me safa, não me trai, não me intriga, não me chama, não me arrisca. Sou inventiva. Sou inventada.

3 comentários:

Carlos Roberto Bueno disse...

Não importa o que você acha, se gosto ou não gosto, mas eu gosto do que você escreve, ponto.

Beatriz Fig disse...

Noossa.. bem vindo num momento em que eu já estou completamente cansada de ter gente me perguntando tudo da minha vida. Gente que não conheço e que nunca mais verei querendo saber o que significa minha tatuagem, porque estou naquele lugar, o que faço e estudo. "Te interessa?" Logo penso.. "Não, claro que não". Mas as convenções sociais me impedem de ser tão franca.

Júlia Brum disse...

Admirável tua escrita, teu jeito de expressar claramente o que essa gente dá mil voltas pra dizer. Ando cansada de rodeios, e voltarei sempre que possível pra ler tuas ideias sólidas e diretas. abraço

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