quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Carnavália

Já sei porque é que não me dou com essa gente. Eles chegam sempre querendo me desvendar, tirar de mim, me arrancar, me revirar do avesso, saber meu nome, meu endereço, e vão, subjulgando meus silêncios, fazendo termos de responsabilidade pra minha loucura assinar, tirando meu vocabulário, me querendo católica, cristã, sem sexo, sem nome, com vergonha das minhas verdades, mocinha de novela das seis, filha boa, não anarquista, nada de discurso idealista, extremista, de revista. Eu escarro tudo o que abrigo, e não sei lidar, eu não sei me comportar, o acidental por acaso sempre me aconteceu. Sozinha de solidão sem solidariedade própria, acho que te amo, acho que vim pra te amar, pra deixar de precisar, nem sei mais beber, não agrado, não amo, nenhum romance me convence, essas amizades descartáveis, essa família que não me aceita, esse mundo reversivo se revertendo no meu estômago. Faço figas comigo. Fico procurando minha função, meu destino, menino, só pode ser teu nome, entre meus dentes, mordiscando a ponta da minha orelha, puxando meu cabelo com as mãos, eu fico aqui me perguntando se isso é o que me salva, me safa, não me trai, não me intriga, não me chama, não me arrisca. Sou inventiva. Sou inventada.

domingo, 20 de novembro de 2011

Contradicción

espero um telefonema
do outro lado do continente
aliso os dentes com a língua
aperto o bico dos seios
com a ponta dos dedos
me distraio na noite
com qualquer porcaria estrangeira
divagando devagar
qualquer coisa que lembre
voz grossa
tipo canalha, insólito
do jeito que meu sadismo gosta
olho por olho
acho que não me vê
tua boca sequer
sabe pronunciar meu nome
deixo um aviso dependurado
no espelho do banheiro:
"entra em mim.
se ao contrário eu entrar em você,
não saio mais"

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