segunda-feira, 4 de junho de 2012

Eu gosto das palavras bonitas. Se eu pudesse, me enfeitava toda delas antes de sair de casa. Assim, como se fossem um par de sapatos. Agora estou ocupada, não quero falar. Ainda não entendem como uma mulher pode se arrumar para si mesma. Acham um abuso. Nos tempos de hoje ainda julgam a mulher que ama, sobretudo se ela amar a si mesma. Eu só deixo de me amar quando amo aquele homem. Aí sim eu apanho da minha ignorância emocional. Mas é de se entender. Sou sempre vista como uma ameaça. Aos meus familiares, aos homens, às mulheres. Em geral me dou bem com os animais, as crianças e os idosos. Para o resto das pessoas eu sou um incômodo. Acho que elas tem medo da verdade. Algumas mal conseguem admitir o que tem entre as pernas. Sou humana demais, e acho que ter crescido com as galinhas me fez demais animal. Não sou explícita. Sou transparente de corpo e de pensar. Embora turva ao sentir. Quando criança meu avô me deu uma galinha. Eu nunca tive irmãos e meus pais trabalhavam fora o dia todo. Meu amor por elas nasceu muito antes de ter lido a crônica da Lispector. Eu amo o silêncio verborrágico e a crueza das espécies. Daí o meu amor pelos animais. Crescida, hoje, vezes me sinto uma galinha encurralada num canto do quintal sendo caçada para o almoço. Eu sei que muitos só querem me comer, sim. E eu me sinto usada. Como se minha existência fosse uma comodidade e um estorvo, sempre servindo aos outros. Todos sabemos que as galinhas não voam. E todos sabemos também que o sonho das galinhas é voar. Acho que sou uma.

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