quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Se me quiser só uma
se me quiser inteira
se me quiser submissa
se me quiser alegre
se me quiser solúvel
se me quiser mais pura
se me quiser mais santa
se me quiser mais casta
me larga
não me chama
não se aproxima
não aprendi os bons modos
não tenho filtro
e nem paciência.
Tudo o que eu amo mora no exagero.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Pode me ler
pode me rasgar no meio
pode me socar o dedo
pode me chupar no íntimo
pode me chamar de puta
pode me amar sem confessar
pode me expulsar de casa
pode me tentar.
Nunca vou ser tua.
Nunca vou me dar inteira
para o que não me atiça.
Eu não amo ninguém.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Estou me dando para o vazio e para o desconhecido. Nada fica muito tempo na minha vida. Tudo se cansa de mim e eu me canso de tudo. A única coisa que persiste em mim é a insistência de querer. Sou o meu pior inimigo.
Sinto minha vida íntima exposta na capa de um jornal, como se ela fosse única e palpável. Há uma rotatividade infinita de mim dentro de mim, ainda que eu seja insuficiente para mim mesma. É como se eu vivesse esperando pelo futuro que quando se torna presente, quero que seja passado. Não sei me habituar ao tempo dos acontecimentos vivos, tão mais existentes quanto eu. Quero existir num tempo impossível.
Eu antiga era melhor e eu futura serei maior, costumo achar. No presente sou sempre nula. Finalmente posso concluir: não existo. O que vive em mim são os acontecimentos. Não eu, propriamente.

Eu estou escrevendo. E quando escrevo, sou como uma fêmea dando cria. Não quero que me toquem, que me falem, que me chamem, que me precisem. Quero ser desse momento que é meu, eu me dividindo comigo mesma, eu me parindo, eu me gerando de novo, eu me inaugurando, eu morrendo um bocado. Porque é da minha natureza feminina gerar. Gerar eu mesma. É da minha natureza precisar constantemente me descobrir. Nunca acharei eu mesma. E se um dia achar, serei pobre. Pobre porque a complexidade do que pulsa é incompreensível. Nunca se pode saber o que se é. Mas insisto.

Tenho medo de mim. Quero família, quero calor, quero presença, quero significados. Quero tanto que já é inútil querer: fogem de mim porque sabem que peso demais. Fujo de mim porque eu sei que não posso me carregar por muito tempo. Volto ao início. Se me perder pelo caminho, será voraz. Terei de me recolher aos cacos, e subverterei minha existência. Tenho calafrios quando me toco. E o faço sempre com um medo desmedido. Ainda que tudo me cerque, sou eu mesma que me afeto. De adjetivos e, sobretudo, de indignação. Sou reticências.

...
"Existe uma mulher em mim que quer ser outras mulheres, e cada uma dessas outras mulheres quer ser outra mulher. Não fico muito tempo na mesma personagem. Não sei nunca quem acordarei, o que será e o que serei. Tenho um êxtase excessivo em achar outras em mim. O homem, pra me amar, certamente precisa querer uma puta e uma santa - mais puta do que santa. As santas são benignas e óbvias. Prefiro ser excitante e enigmática. Sobretudo provocativa, sempre."

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

engana-se o homem
que acha que sou bonita
não sou
sou fingida
sou fictícia
sou e não sou
se nem minha sou
muito menos tua serei

fui encubida de ser só

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