quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ainda é cedo

Ônibus lotado, sapato apertado, nó nos cabelos, cansaço sem sono. Os incômodos externos ainda não são capazes de superar os internos. Ele não me contou que era casado, por exemplo. Foi uma noite no bar e só. O outro, o que mais me impressionava e o que mais me dava pavor, saiu da minha vida do modo mais lindamente trágico que já pode me acontecer. Ele bateu a porta na minha cara, me apontou o dedo, me desejou dores eternas de amores, me deixou uma marca roxa na coxa, mordida no lábio e gosto de azedo por todo o corpo. A raiva dele contra mim foi externa. Me senti uma vagaba, uma menina, uma safada, uma errada. Alguns poucos meses depois, não suporto. Decreto o fim do que não começou. Vou ao banheiro e vomito. Vomito uma espécie de amor de amor barato, vulga paixão. Vou para o hospital, passo dias anestesiada de uma dor que parece infinita. Nada cabe no corpo, ninguém é o suficiente. Meu corpo de luto. Volto a mim, digo que não para dúzias, e sim para alguns nulos, abaixo de zero, de tão poucos, tão pequenos. Volto a fumar. A análise é um tapa na cara que eu quero sempre. Me descubro sozinha, sozinha e mulher. Enorme e minúscula, contraditória, benigna, violenta. O médico me revira, me pergunta, me acusa. Meu útero lateja, arde, queima, chora. Eu quero mãe. Sou eu e eu mesma. Me sinto como uma retirante que acaba de ser jogada em alguma esquina do centro de São Paulo. Ainda não sei dessa cidade. Nem de mim. Nem dele. Nem do amor. Eu amo em outra língua porque não sei amar na minha. Mas haja, haja, haja tempo gasto. Ninguém se entrega a ninguém. Certos estão eles, ou não. Sofro cada dor minúscula, cada incômodo físico, cada agulhada emocional. É árduo esse modo sim, e é meu. Sou inteira minha. Mas eu queria mesmo era fazer as malas e sair para viajar de mim. Um dia eu volto. Talvez não mais estrangeira.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Queria ser metade da calma em ser mulher, ou em ser outros. Qualquer coisa que não seja eu mesma. É a efervescência que me impressiona. É só assim que me concentro. É aqui que moro. Na impossibilidade crua.

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