quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tem uma sequência errada de acontecimentos em mim. E eu nem sei por onde me começar. Eu tenho uma vergonha fodida de andar comigo na rua. Queria me virar do avesso, vender meu corpo na esquina sem direito a devolução, perder a audição da minha voz interna. Sinto certa pena do que eu me tornei - porque cada movimento em mim foi involuntário, nada se forçou, apenas talvez o constante e inútil exercício de esquecimento. Se não sou essa por fora e nem essa por dentro, o que é que eu sou? Me perdi pelo caminho. E não há quem me recolha. Meu amor é violência. Sou uma eterna insatisfeita que não cabe no corpo que me foi dado. Eu deveria ter vindo com algum roteiro, uma espécie de chave de liga e desliga, abre não abre, tranca pra fora, hoje não é dia de entrar em mim, ainda não é tempo de deixarem eles entrarem. Sempre quebram os vasos da esperança e eu termino de atear fogo na casa com os corpos feridos estendidos no chão da sala. De nós sobram sempre cinzas. Um dia vamos queimar pra sempre. Um dia me queimo sem volta.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Eu gosto das palavras bonitas. Se eu pudesse, me enfeitava toda delas antes de sair de casa. Assim, como se fossem um par de sapatos. Agora estou ocupada, não quero falar. Ainda não entendem como uma mulher pode se arrumar para si mesma. Acham um abuso. Nos tempos de hoje ainda julgam a mulher que ama, sobretudo se ela amar a si mesma. Eu só deixo de me amar quando amo aquele homem. Aí sim eu apanho da minha ignorância emocional. Mas é de se entender. Sou sempre vista como uma ameaça. Aos meus familiares, aos homens, às mulheres. Em geral me dou bem com os animais, as crianças e os idosos. Para o resto das pessoas eu sou um incômodo. Acho que elas tem medo da verdade. Algumas mal conseguem admitir o que tem entre as pernas. Sou humana demais, e acho que ter crescido com as galinhas me fez demais animal. Não sou explícita. Sou transparente de corpo e de pensar. Embora turva ao sentir. Quando criança meu avô me deu uma galinha. Eu nunca tive irmãos e meus pais trabalhavam fora o dia todo. Meu amor por elas nasceu muito antes de ter lido a crônica da Lispector. Eu amo o silêncio verborrágico e a crueza das espécies. Daí o meu amor pelos animais. Crescida, hoje, vezes me sinto uma galinha encurralada num canto do quintal sendo caçada para o almoço. Eu sei que muitos só querem me comer, sim. E eu me sinto usada. Como se minha existência fosse uma comodidade e um estorvo, sempre servindo aos outros. Todos sabemos que as galinhas não voam. E todos sabemos também que o sonho das galinhas é voar. Acho que sou uma.

Visitas